Em mais uma edição do Diálogos da Saúde, governador destacou resultados da Tabela SUS Paulista e defendeu avanços em eficiência, regionalização, saúde digital, integração de dados e remuneração por desfechos clínicos
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, participou na segunda-feira, 17 de agosto, na sede da ARCA, na Capital paulista, de mais uma edição do Diálogos da Saúde. Na oportunidade, o atual governador e candidato à reeleição fez um balanço das ações de sua gestão na saúde e apresentou os principais desafios do setor para os próximos anos. A conversa foi conduzida por Francisco Balestrin, presidente do Conselho de Administração do SindHosp e da FESAÚDE.
O encontro reuniu lideranças, gestores e representantes de diferentes segmentos da saúde. O Diálogos da Saúde é um espaço permanente de interlocução, criado pela FESAÚDE e pelo SindHosp, que reúne representantes do ecossistema do setor e candidatos a cargos no Poder Executivo nas esferas federal, estadual e municipal. A iniciativa tem como propósito promover um diálogo qualificado sobre os principais desafios da saúde, contribuir para a formulação de políticas públicas mais eficazes e estimular a construção de soluções capazes de ampliar o acesso, elevar a qualidade da assistência e gerar benefícios concretos para toda a sociedade.
Anfitrião do encontro, Balestrin lembrou que Tarcísio já havia estado na FESAÚDE e no SindHosp em 2022, ainda como candidato ao Governo de São Paulo. Na ocasião, recebeu propostas do setor e discutiu temas como financiamento, acesso, promoção da saúde, prevenção, recuperação e reabilitação. Ao abrir a conversa, o presidente do Conselho de Administração do SindHosp propôs justamente um balanço desse período e uma discussão sobre os próximos anos. “Uma felicidade muito grande recebê-lo aqui de novo”, afirmou Balestrin ao receber o governador. Segundo ele, muitos dos presentes também acompanharam o encontro realizado quatro anos antes e a trajetória das propostas discutidas naquela ocasião.
Antes da conversa com Tarcísio, as entidades anfitriãs apresentaram os 5 Inegociáveis da Saúde, agenda que propõe como prioridades a identificação única do paciente ao longo do cuidado, dados estruturados e interoperáveis, acesso qualificado, padronização assistencial e combate ao desperdício. Ao comentar a proposta, Tarcísio afirmou que esses pontos devem orientar o governo. Lembrou que, em 2022, a FESAÚDE e o SindHosp já haviam apresentado recomendações que foram incorporadas ao plano de governo e às ações da gestão da Secretaria de Estado da Saúde e disse que pretende seguir o mesmo caminho com os novos compromissos. “Acho que isso tem que ser um mantra”, afirmou o atual governador ao citar acesso qualificado, integração de dados, cuidado padronizado e combate ao desperdício.
Nesse contexto, Balestrin comemorou o posicionamento do governador. “Outra boa coisa que o senhor nos trouxe, além da vossa presença, é que a nossa proposta dos 5 Inegociáveis da Saúde foi aceita”, disse o presidente do Conselho de Administração da FESAÚDE e do SindHosp, antes de abrir a rodada de perguntas.
Ao longo da exposição, Tarcísio concentrou-se, principalmente, no financiamento do SUS, na ampliação da capacidade assistencial, na redução das filas e na busca por mais eficiência, tecnologia, integração da rede e melhores resultados clínicos.
Tabela SUS Paulista e ampliação da assistência
O subfinanciamento foi apontado pelo governador como um dos principais problemas encontrados no início da gestão. Nesse contexto, a Tabela SUS Paulista ocupou boa parte de sua apresentação. Criada para complementar os valores pagos pelo Ministério da Saúde, o mecanismo permitiu, segundo ele, ampliar a remuneração de procedimentos e recuperar a capacidade de atendimento de hospitais filantrópicos e municipais. Em algumas situações a remuneração estadual chega a três, quatro ou cinco vezes o valor da tabela nacional, segundo Tarcísio. A medida buscou enfrentar um problema recorrente, sobretudo entre santas casas e instituições filantrópicas. Muitas aumentavam a produção, mas acumulavam prejuízos porque os valores recebidos não cobriam os custos dos procedimentos.
Os números apresentados pelo governador indicam a abertura de 8,6 mil leitos nos últimos quatro anos. No período, o Estado entregou 14 hospitais e 18 unidades de saúde no total, considerando também dois centros de reabilitação e dois ambulatórios médicos de especialidades. Mais de 20 unidades estavam em obras no momento do encontro.
A produção também aumentou. De acordo com Tarcísio, São Paulo passou de uma média histórica próxima de 750 mil cirurgias eletivas por ano para 1,3 milhão em 2025. Ele citou ainda 10 milhões de procedimentos ambulatoriais adicionais, crescimento de aproximadamente 50% nas tomografias computadorizadas, quase 40% nas sessões de quimioterapia e mais de 30% nas de radioterapia.
O modelo foi levado também aos hospitais municipais. Muitas dessas unidades, explicou o governador, têm estrutura disponível, mas operam abaixo da capacidade por falta de previsibilidade para o custeio. Com a complementação estadual vinculada à produção, a proposta foi dar condições para ampliar o atendimento.
Eficiência entra no centro da discussão
Depois de um período marcado por mais financiamento e aumento da capacidade assistencial, a eficiência deve ganhar peso maior na estratégia do Estado. Durante o encontro, Tarcísio afirmou que entre 16% e quase 20% das internações seriam evitáveis ou sensíveis a uma atenção básica mais resolutiva. Na avaliação dele, reduzir esse volume ajudaria a aliviar a pressão sobre a rede e a controlar gastos.
O fortalecimento da atenção primária foi relacionado ao acompanhamento adequado de condições como hipertensão e diabetes, às ações de prevenção, ao treinamento de profissionais e a mecanismos de incentivo aos municípios. Entre eles, o governador citou o Incentivo à Gestão Municipal, modelo em que uma parcela dos recursos está vinculada ao cumprimento de metas. Cobertura vacinal, pré-natal, acompanhamento de hipertensão e diabetes e realização de exames preventivos estão entre os indicadores mencionados.

Com mais dados disponíveis, disse Tarcísio, o Estado passou a enxergar melhor a produção dos municípios, a capacidade ociosa das unidades e os principais indicadores assistenciais.
Tabela SUS Paulista pode avançar para remuneração por desfecho
A evolução do modelo de pagamento da Tabela SUS Paulista também ganhou espaço na conversa. Ao ser questionado sobre qualidade e resultados assistenciais, Tarcísio defendeu a criação de incentivos ligados ao desfecho clínico, reduzindo o peso de uma lógica baseada apenas no volume de procedimentos. “Qual é o incentivo financeiro que eu vou dar para o bom desfecho clínico?”, questionou.
Para o governador, associar pagamento e resultado pode ser o próximo passo da tabela. Ele reconheceu que o próprio modelo paulista corre o risco de perder efetividade ao longo do tempo caso fique restrito à atualização dos valores pagos pelos procedimentos. A discussão passa pelo uso dos dados disponíveis no sistema para medir resultados e criar incentivos relacionados à qualidade da assistência. Especialistas presentes ao encontro também defenderam modelos de remuneração que levem em conta o desempenho clínico, além da quantidade de procedimentos realizados.
Regionalização e saúde digital para ampliar o acesso
O acesso foi outro tema recorrente. Para Tarcísio, regionalização e saúde digital estão entre os principais caminhos para ampliar a capacidade de resposta da rede. Na regionalização, a proposta é organizar melhor as responsabilidades e os fluxos entre serviços municipais, hospitais estaduais, instituições filantrópicas e ambulatórios de especialidades. A ideia é definir com mais clareza quem faz o quê em cada região, melhorar os encaminhamentos e evitar investimentos em estruturas que podem ficar subutilizadas.
O governador usou como exemplo municípios que pretendem abrir serviços próprios, como maternidades, mesmo quando a demanda local pode não justificar o custo da estrutura. Nesses casos, defendeu uma análise regional da oferta já existente antes da criação de novos equipamentos.
Na saúde digital, Tarcísio citou experiências de telemedicina na atenção básica, no sistema prisional, no acompanhamento de pacientes com AVC e na gestão remota de UTIs. Nas unidades de terapia intensiva, equipes especializadas conseguem discutir a distância casos atendidos em diferentes regiões do Estado e orientar condutas. Para o governador, reduzir o tempo de internação dessa forma aumenta a capacidade da estrutura já existente e pode produzir efeito semelhante à abertura de novos leitos.
O uso de inteligência artificial também deve crescer. “Gostaria de deixar um Estado muito mais digital do que ele é hoje, com muito mais inteligência artificial”, afirmou Tarcísio ao falar sobre um possível próximo mandato.
Integração de dados para reduzir desperdícios
A integração das informações apareceu como parte da busca por eficiência. Tarcísio citou situações em que dados se perdem quando um paciente passa por diferentes serviços da rede. Isso pode levar à repetição de exames e a custos desnecessários. Segundo ele, o Estado ampliou sua capacidade de acompanhamento com painéis e ferramentas de análise de dados, hoje utilizados para visualizar produção, indicadores e desempenho das redes municipais.
Com essa estrutura disponível, o próximo desafio está na integração das informações e na qualificação dos profissionais responsáveis pelo registro e pela gestão desses dados. Também foi discutida a diferença de maturidade digital entre os municípios, que têm níveis distintos de estrutura e capacidade para incorporar novas tecnologias.
Experiências de saúde digital na atenção básica começaram, em caráter inicial, em cerca de 30 dos 645 municípios paulistas, segundo Tarcísio, e devem ser ampliadas gradualmente. Municípios menores poderão ter acesso aos serviços digitais por meio de núcleos regionais.
Saúde mental e envelhecimento entram nas prioridades
Saúde mental e envelhecimento populacional também apareceram entre os temas que devem receber maior atenção nos próximos anos. Tarcísio afirmou que a saúde mental deverá ser um dos pilares de um possível próximo plano de governo. Entre os problemas citados estão o uso excessivo de telas, as apostas on-line e a sobrecarga de determinados grupos. Ele também mencionou experiências de teleatendimento realizadas com professores e profissionais da segurança pública.
O envelhecimento da população foi tratado como outro desafio para a rede. O governador falou sobre a necessidade de preparar os serviços para uma população com mais doenças crônicas e avaliou que a oferta de atendimento em geriatria poderá precisar de expansão.
Ao final do encontro, Balestrin agradeceu a participação do governador e dos representantes do setor. Tarcísio encerrou reconhecendo que ainda há muito a fazer. Eficiência, integração de dados, regionalização, saúde digital, qualidade assistencial e mensuração de desfechos clínicos concentraram boa parte da discussão sobre os próximos passos da saúde paulista.
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